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domingo, 18 de maio de 2008

Sobre cotas, racismo, 13 de maio e outras injustiças


Parece incrível como avançamos pouco no combate ao racismo no Brasil. As estatísticas dão conta do preconceito contra negros e negras, seja pelo número de mortes, seja pela pobreza, na educação, no acesso a cultura e ao lazer, no trabalho, mas sobre estes dados são poucos os que se insurgem. São poucos os que saem todos os dias a dizer que nada fizemos desde a formalidade do fim da escravidão com a assinatura da princesa em função da pressão dos ingleses. Aliás, este fato também parece estar sumindo dos artigos sobre o oportunismo da princesa. Tudo está sendo jogado por baixo do tapete. A dívida social se alarga, embora a imprensa tente nos provar o oposto, que estamos cada vez mais civilizados.
Outros crimes conta setores da Humanidade são coroados ao pódium de protegidos contra o esquecimento e outros jogados no limbo, no quarto ao lado da amnésia. Não devemos esquecer nenhum deles. É preciso mesmo jogar luz, mas sem alterar o foco.
Ninguém esquece o Holocausto. Mas é bom que se lembre que não foram somente judeus os chacinados; também comunistas, também negros, também homossexuais, também pessoas com deficiência mental e física.
Mas ninguém esquece o Holocausto. A morte da maioria branca. Embora se esqueçam do número de soldados russos que combateram Hitler, na guerra particular entre Stalin e o III Reich. Cerca de 28 milhões de russos morreram para impedir que as tropas nazistas completassem seu ultimatum ao mundo. Mas como a Humanidade Hegemônica também não se importava com as pessoas dos países ditos comunistas, também não se faz esta conta dos mortos. Ou seja, em geral, lembram-se dos brancos mortos, mas não de quaisquer brancos.
Vejamos que sentido isto possui quando discutimos o racismo no Brasil. Do início do século XVI até o final do XIX, quatrocentos anos de escravidão parecem desaparecer para debaixo do tapete quando as cotas são atacadas. O senso comum se insurge e parcela dos ditos intelectuais profetizam tragédias para quem atacar o Estado de Direito, da igualdade, da legitimidade.. As cotas não encerram de maneira alguma o problema, principalmente porque não há uma estrutura completa de assistência. As vagas deveriam ser garantidas nas universidades públicas para todos os filhos dos trabalhadores, e os próprios trabalhadores; universidades que deveriam ter mais verbas. Ao contrário, o governo federal cada vez mais estende verba às particulares, e quando inaugura novas federais, o processo de seleção dos profissionais e a ausência de um plano de carreira beiram quase à terceirização.
Caetano Veloso escreve, em parceria com Gilberto Gil, Haiti, mas agora faz coro com os ditos intelectuais que se pronunciam contras as cotas, porque elas expressam, segundo os próprios, um ataque ao Estado de Direito. Que Estado de Direito? O Estado de Direito dos ricos está mantido. O discurso republicano é anedótico.

...Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro...
(letra completa no final com opção de áudio)

Caetano Veloso e a elite contrária às cotas querem denunciar, denunciar, mas não querem exigências. Nem para FHC, nem para Lula nem muito menos para o Estado de Direito do qual são fiéis escudeiros e representantes. Fazem discurso de que cotas representam o racismo invertido. A Doutora Antropóloga Yvonne Maggie da Universidade Federal do Rio de Janeiro, hoje no Estadão (18/5 - Caderno: Aliás), diz que não pode haver discriminação positiva. Utiliza exemplos que não nos cabem. Nenhum outro país teve 400 anos de escravidão. Nenhum outro país tem a diferença salarial e discriminação no recrutamento para o emprego, que não pára na etnia, mas principalmente começa por ela.
O Estado de Direito é deles, deles e de quem tem verba, dinheiro, grana, pouco importa o nome, pois, aí não importa nada.
Quando os dois compositores escreveram Haiti, Gilberto Gil não era Ministro da Cultura de Lula e Caetano Veloso não tinha ainda atingido o ápice da insensibilidade que se confunde com despolitização. Lula não era Presidente. E não tinha enviado tropas brasileiras para matar haitianos. É a dinâmica da vida.
E a burguesia brasileira, cada vez mais inconsistente. Sem vergonha na cara. Sem projeto. Pronta para sumir com uma pastinha de dólares, como escreveu outro compositor (Cazuza). Se arrogar o direito sobre o Estado de Direito que já é seu.
Eis que ainda há outro problema: A justiça pende, pende e quebra... para o lado dos trabalhadores. Saiu durante a semana passada no jornal Folha de São paulo, uma pequenina nota sobre um garoto de três anos que foi jogado da janela na Cidade Tirandentes, zona Leste de São Paulo. Uma parca notinha, enquanto a primeira página do Caderno Cidades continuava ocupada pelo caso Nardoni. Colocar a notinha é importante para que se perceba que o Estado de Direito existe nos mesmos lugares e para as mesmas pessoas que o trouxeram para cá.
A Justiça julga rápido quanto lhe convém, porque o crime físico provoca comoção, mas e o crime aparentemente imaterial, dos desvios das verbas públicas para saúde, educação, cultura, lazer? E as falcatruas dos não depósitos de INSS de empresas de prestação de serviços, como a Telefônica, ou, quem sabe, alguma cervejaria? Desviar dinheiro é crime, que leva outros milhares ao submundo. Pagar a dívida externa e aumentar os valores dos alimentos é crime. Desmatar a Amazônia é crime. Se Marina saiu... aguardemos o que virá... Ela se curvou e ainda assim quiseram que ficasse de joelhos, depois de cócoras... Eles não dão trégua. Eles têm tempo. Essa elite é mesmo uma piada de mau gosto, mas que temos de enfrentar.

Gislene Bosnich

Haiti
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil

Para escutar a canção gratuitamente: http://musica.busca.uol.com.br/radio/index.php?ad=on&ref=Musica&busca=Haiti¶m1=homebusca&q=Haiti&check=musica


Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

2 comentários:

nicole disse...

Em relação as cotas,eu não votei pois sou a favor mas tambem sou contra.
Sou a favor por que acho que dessa forma existem boas chances para os negros,porém,sou contra por que acho que isso é mais uma forma de racismo como se o negro não tivesse competencia.

Andrea disse...

Acho importante colocar ainda nessa discussão sobre a distribuição de cotas para negros e indígenas o fato de que essa política tem de ser tratada como uma política emergencial, debate que o governo e a sociedade têm se esquivado. As cotas devem ser distribuídas de maneira imediata para corrigir uma distorção que é urgente, visto que hoje a maioria negra e indígena é também pobre e, portanto, não tem acesso ao ensino público básico de qualidade. O governo tem de aplicar já a política de cotas para dar, agora, o acesso ao ensino público superior ao pobre, mas concomitantemente deve aplicar uma política de melhoria do ensino público básico para que, daqui a 20 anos, as cotas não sejam mais necessárias. Acredito que as duas questões devem fazer parte do mesmo projeto, da mesma lei, da mesma diretriz para e educação. Com a melhoria gradativa do ensino básico, vai chegar uma época em que tanto os pobres como os ricos terão as mesmas oportunidades em disputar uma vaga no ensino superior público.
Até mais
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